Querido Andreas,
Quando visitei seu estúdio no ano passado, tive a impressão de estar num labirinto enquanto conversávamos entre os muitos significados materiais e simbólicos das suas obras. A areia, por exemplo, é ao mesmo tempo a matéria-prima do silício - que sustenta grande parte da infraestrutura das Big Techs - e do vidro que encaramos nas nossas telas de cada dia. Por isso mencionei O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges: um livro sagrado e diabólico que, como a areia, "não tem começo nem fim". Seu narrador guarda em sua coleção volumes raros da Bíblia - textos que definem a relação entre Deus e os homens; você coleciona as palavras geradas pelos CAPTCHAs - testes que distinguem computadores de humanos. E assim como a areia ao vento, essas alegorias continuam desde então a mudar a paisagem das minhas impressōes.
Borges publicou este conto no livro homônimo em 1975: 'um volume de folhas incalculáveis', segundo ele. Ao tentar virar uma página, o narrador descobre que nunca encontrará a mesma duas vezes - catalogar tal coisa é tarefa inútil. Penso que a obra Ransom Notes evoca um aspecto semelhante das plataformas digitais: um scroll sem ponto de chegada, onde o conteúdo sempre encontra mais conteúdo para exibir. A diferença é que, em Borges, o 'Livro' labiríntico é físico, pesado, tangível; ele consome a si mesmo até ser escondido numa biblioteca. O nosso cabe no bolso, brilha à noite, vibra no silêncio. E nós nos consumimos ao tentar consumi-lo - 'against my will', como lemos na sua obra.
Como num pacto faustiano moderno. Na tragédia de Goethe, Fausto aposta sua alma por experiências ilimitadas, acreditando poder ter domínio sobre o tempo - até que, em seus últimos dias, se volta para o trabalho físico, sonhando com terra livre para homens livres. Sua redenção vem não do prazer desenfreado ou do conhecimento sem limites, mas da criação enraizada na terra. Ransom Notes torna-se essencial aqui: se estamos presos à demanda de atenção dos algoritmos, qual resgate devemos pagar para recuperar nossa vontade? Acho que Emulates Yesterday. materializa essa tensão na fronteira entre humano e máquina: escrito em areia branca de sílica, ele representa um teste CAPTCHA - mas aqui questionando nosso tempo, ao invës de nossa identidade: o que do ontem podemos materializar hoje, para que possamos reinventar o amanhã?
Perdidos nesse labirinto de areia e vidro, o que resta é o que fica: materiais, trabalho tangível, memórias. Numa letra que ambos gostamos, Caetano Veloso canta: "Água com areia/brinca na beira do mar /a água passa/a areia fica no lugar." Ao desligar a tela, me vem uma recordação de infância sobre um dos meus objetos favoritos: uma ampulheta. Lembro-me de ficar contemplando a fina areia azul escorrer pelo pequeno vão transparente ao centro. E é como se eu pudesse ouvir a voz do estranho no Livro de Areia me dizendo: "Olhe-a bem. Nunca mais a verá."
Um abraço!
Leandro

© Bonne Espérance 2026. All rights reserved.